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Helsínquia

Por João Vasco Almeida

 

O grande medo é que a atividade de Trump se torne normal e que o povo do mundo considere bom, isto é, com bondade, aquela loucura isolacionista e revelha, que perora nos Estados Unidos desde que os Estados não estavam unidos.

Trump

Trump gosta de palco e de revista, o público gosta de entretenengas. Esta é aparentemente inofensiva, uma vez que o ator grita: “Os que estão aqui comigo no teatrinho estão a salvo! Fechai as portas, que lá fora há homens maus!”.

Isto descontrai os espetadores, parecendo que não. O artista, o verdadeiro artista que é o Donald, sabe usar o descomedimento das massas. É um homem do povo, próximo dele. O twitter é a nova bifana. Isto é: Cavaco e Soares comiam bifanas para estar perto do povo, Trump usa a rede social e assim, só assim, se torna humano e não o POTUS do costume.

Há um real perigo na normalidade trumpal: que toda a América, a Europa, até a pequena aldeia na Gália sejam tomadas pela síndrome de Helsínquia. Este estatui que o cativo se apaixona pelo captor e lhe lança até sentimentos maternais e de proteção, numa resposta emotiva para não se enlouquecer perante a captura.

Estamos, assim, na era de ter medo de deixarmos de ter medo e amarmos a besta, pela facilidade que isso imprime nas nossas vidas.

Nada é normal em Trump, na expulsão de um jornalista que confronta LePen, numa autoridade palestiniana que quer reescrever a História pedindo a Guterres que se desculpe pelo absoluto facto que é a origem do Templo.

São tempos que não lembram outros tempos, onde a maioria não acedia a informação. São tempos que não são do pós-verdade ou dos factos alternativos. Não.

Estes são os dias do “apesar”. Apesar de tudo, soçobra-se, pelo egoísmo e pela promessa de quentinho e sossego que os homens e mulheres artistas nos prometem, sem factos mas com grandiloquência. O que nos parece bastar.


jva
João Vasco Almeida é director da revista Karga! e foi editor de Política e Chefe de Redacção de publicações como Focus, TVI24, 24horas, Tal&Qual ou Ego. É cronista e mantém correspondência com os jornais La Vanguardia, Iberosphere e Folha de São Paulo. Escreveu ainda para o Diário de Notícias e Visão

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