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Mentir, mentiu. E depois?

Por João Vasco Almeida *

 

Ah! O tempo da treta, em que vivemos, é uma lufada de ar fresco – de Centeno a La La Land, de Trump à ministra da Presidência, vale a inequação do segundo grau.
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Foto: Miguel Baltazar/Jornal de Negócios

É outro dia de sol nas estimadas praias, nos edifícios centenários, nas pistas de dança dos bailes de aldeia. Mentirá hoje um bombeiro voluntário que se dirá estudante de engenharia à moça de amarelo, que além de palminho de cara tem um negócio de cosméticos. Ninguém leva a mal ao bombeiro, porque se fizéssemos um avanço neste filme o veríamos feliz, ele e ela, daqui a anos, filhos e tudo, um deles a formar-se em engenharia pelo Técnico. É o tempo do sonho que o leva a mentir-lhe aqui em Cedofeita, enquanto a banda cobre um tema machista de Anselmo Ralph. Pouco importa.

Pouco importa Centeno ter dito a Domingues ‘deixa lá os papéis’, porque o Domingues nem sequer cá está, agora. Tudo se resolve com o tempo, que é o melhor dos amigos para as mágoas e mentiras. Se Centeno deve cair? Não, que se aleija, pobre senhor, daquela altitude onde lhe está a cabeça ainda havia traumatismo.

O dia soalheiro corre sem problemas, aceitemos a mentira como modo de vida. Há menos desemprego? Claro que há! As contas do Estado estão bestiais e a pobreza infantil desapareceu – das notícias, pelo menos. Não há pó de arroz que não tape uma verruga e um Manuel Alegre para nabuangogar uma retórica mais assertiva.

Ainda há dias a ministra da Presidência não sabia o que era um “precário”. Nunca teve dentes de leite, por certo.

Celebremos então, com os violinos, os fagotes e os tambores, estes tempos em que até o musical da estação nos mente e confunde, onde o presidente das américas tuíta e o das filipinas insulta o filho, chamando-lhe gay, enquanto a multidão aplaude e se ri.

De que valerá ser verdadeiro quando a novela da noite mente sobre a doença de Crohn e é líder de entretenimento – e a estação diz que está cá para divertir, não ensinar.

É o Inverno onde a palavra de honra tem sempre duas soluções, como as velhas inequações do segundo grau.

E é outro dia de sol, mais um, quando outro bombeiro será astronauta para mais uma donzela e debutante, em direcção a Marte, ao som de uma música feita numa Bimby.


jva
João Vasco Almeida é director da revista Karga! e foi editor de Política e Chefe de Redacção de publicações como Focus, TVI24, 24horas, Tal&Qual ou Ego. É cronista e mantém correspondência com os jornais La Vanguardia, Iberosphere e Folha de São Paulo. Escreveu ainda para o Diário de Notícias e Visão

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  • Mentir, mentiu. E depois? – IDEIA PERIGOSA 10/02/2017 at 13:42

    […] O grande dano ou a mentira popular. Para ler no Canal Cidadão. […]

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