Prof. Eng.º António Brotas

Um novo aeroporto para Lisboa?

António Brotas *

 

Governo já decidiu que novo aeroporto é no Montijo

Creio que é uma aposta perdida.

Julgo que um aeroporto no Montijo, complementar do da Portela para uso de pequenos aviões, só poderá cumprir este objectivo se, em termos rodoviários e ferroviários, for perto de Lisboa, o que só se verificará se fosse construída  uma ponte do Barreiro para  Lisboa; esta teria de ser bastante alta para não inviabilizar  a navegação e estacionamento de grandes navios no Tejo a seu montante e, em consequência, um hipotético futuro grande porto oceânico no Barreiro, concebido pelo anterior Secretário de Estado Sérgio Monteiro  E sendo alta  e, naturalmente, caríssima, é incompatível com o uso das futuras e necessárias novas pistas do aeroporto do Montijo. Parece-me, em  absoluto, um caso  de irresponsabilidade avançar com uma decisão sobre este assunto sem ouvir antes os muitos técnicos que sobre ele  têm conhecimentos e uma opinião.

Portugal, pela sua situação geográfica, tem condições excepcionais para construir na região de Lisboa um grande aeroporto que, além de servir para os passageiros  destinados ao próprio país, sirva de escala  a passageiros dos Estados Unidos e do Canada destinados ao Sul de África, e a passageiros da América do Sul destinado à Russia e a paises do Leste europeu.  Mas este aeroporto  terá de servir para grandes aviões, o que de modo nenhum é o caso do aeroporto do Montijo. São estes aviões que actualmente vindos do Brasil e de outros países da América do Sul  acordam às 7 da manhã  os habitantes de Lisboa depois de atravessarem o Atlântico  Sul.

Um futuro grande aeroporto de Lisboa  é uma grande obra, que exige uma decisão muito bem pensada, que se for errada, pode comprometer por um largo período  o futuro do País e, de modo nenhum pode ser confundida com as decisões do Secretário de Estado dos Transportes e das Obras Públicas do anterior Governo, Sérgio Monteiro, que tinha o “mérito” de saltitar de uma obra para outra logo que se verificava que a obra  anterior, para que tentara abrir  um grande concurso internacional não  tinha qualquer suporte técnico (e agora está encarregue de vender um banco).

Um novo aeroporto de Lisboa tem de ser estudado em conjunto com todas as outras  grandes obras relacionadas com transportes na metade Sul do País, nomeadamente, com a entrada em Lisboa da linha de bitola europeia vinda de Espanha e da linha que terá de seguir para o Norte, com as futuras terceiras travessias  do Tejo  (que já têm nome TTT antes de estarem decididas), de novos portos e da utilização dos existentes como Sines. O futuro do País vai depender destes estudos e um exemplo flagrante de uma decisão precipitada é a de utilizar o aeroporto do Montijo como complemento da Portela, sem antes estar decidida a ponte para o Barreiro (que penso já foi posta de lado por todos os que estudaram seriamente).

Os estudos atrás referidos vão exigir ainda vários anos. Mas acontece que, até 2019, ou seja, atéao final dos dois períodos eleitorais que temos na frente, o País guarda,  ainda, em meu entender e de outras pessoas com quem falei sobre a questão, a possibilidade de estabelecer um calendário de entendimento entre todas as forças políticas que terão de tomar decisões sobre ela.

Simplificando um bocado, basta que nestes três anos não se tomem decisões precipitadas, nem sobretudo, disparatadas. Será possível ?

E depois? Depois, se não se cometerem grandes erros nestes três anos, será provavelmente possível continuar sem erros.

Limito-me, aqui,  a discutir o que  é  possível, nestes três  anos. Todos os economistas nos dizem que o país tem grandes dificuldades financeiras. No que diz respeito às grandes obras públicas é, de certo modo, uma vantagem. Só podemos fazer poucas obras e temos tempo para estudar convenientemente todas as soluções. Vou referir algumas que já foram propostas há vários anos e o anterior governo sistematicamente “esqueceu”.

Com respeito à linha ferroviária  de bitola europeia que nos comprometemos com os espanhóis a fazer  de Madrid a Lisboa. No acordo entre os dois países não foi indicado se se tratava de uma ligação entre as duas cidades ou entre as duas Áreas metropolitanas, que no caso português são muito diferentes.

Podemos defender (e os espanhóis certamente ficarão contentes e aceitarão), que, numa primeira fase, faremos somente a linha até ao Pinhal Novo que fica na Área metropolitana de Lisboa e onde há uma estação onde passam comboios da Fertagus e da CP para vários destinos. Basta-nos construir a linha de Badajoz ao Poceirão, que já foi projectada  (e pela qual o Estado Português terá de pagar uma  indemnização se desistir) e fazer um prolongamento até ao Pinhal Novo. Esta solução, ao alcance das nossas finanças e que altera radicalmente a situação ferroviária na península de Setúbal e no Norte do Alentejo já foi defendida na televisão e poderia, talvez, já estar construída se não tivesse sido “esquecida” pelo anterior governo.

Com respeito às futuras entradas em Lisboa das linhas de bitola europeia, já foi feito (e pago) o estudo de um comboio vindo do Norte, que passaria entre as duas pistas do não-aeroporto da Ota, e depois viria até Lisboa pelo vale do Trancão. É uma proposta que, manifestamente, tem de ser posta de lado. Uma solução que  deve ser ponderada e é, a meu ver, a melhor, é a de passar à bitola europeia metade das 4 linhas que vão da Gare do Oriente a Alverca e fazer uma ponte, antes ou depois de Alverca, para passar estas linhas para a Margem Esquerda. Um ramo destas linhas de bitola europeia poderá ir até   perto da Chamusca, onde atravessará de novo o Tejo para ir até ao Entroncamento donde seguirá para Norte. Obviamente, a estação de Santarém terá de ser na Margem Esquerda, o que evita vários problemas.

Um outro ramo poderá ir até até ao Pinhal Novo cumprindo, talvez daqui a 10 anos, a promessa de fazer uma linha de Alta velocidade, desde Lisboa cidade, a Madrid cidade. Estes assuntos já foram amplamente discutidos no Laboratório da Engenharia Civil e na Ordem dos Engenheiros e, no número 3 de Janeiro de 2013 do “Jornal República”, o engenheiro Luis Cabral da Silva publicou um longo artigo sobre os futuros comboios da península ibérica.

Mas, mais ainda, depois de atravessar o Tejo perto de Alverca, a linha de bitola europeia dirigido para o Pinhal Novo, passa perto da Carreira de Tiro de Alcochete, que penso  pertencer ainda ao Estado Português  e é, indubitavelmente, o local mais indicado para, com custos relativamente baixos e faseados, construir um novo grande aeroporto, com bom acesso a Lisboa e que possa, por várias décadas, resolver o nosso problema aeroportuário e contribuir  significativamente para o desenvolvimento de toda a Margem Sul do Tejo. Por isso, penso que este assunto deve ser abordado e discutido durante as próximas eleições autárquicas.

Estes assuntos, que  não se limitam de modo nenhum a uma  discussão sobre se o aeroporto do Montijo deve ou não ser usado em complemento do da Portela (decisão que  a meu ver é completamente errada) continuarão certamente durante muito tempo a ser discutidos  na sociedade portuguesa.

O País sofre, ainda, da supressão, há cerca de 10  ou 15 anos, do Conselho Superior das Obras Públicas. Depois de ter escrito as linhas acima, passei os olhos sobre o livro “O erro da Ota” coordenado em 2007  pelo Professor Mendo Castro Henriques, em que participaram 20 especialistas, e onde encontrei um texto escrito uns dias antes de morrer pelo Engenheiro Reis Borges, responsável técnico pela construção de inúmeros  aeródromos portugueses espalhados pelo mundo, em que fala da actuação do referido Conselho. A sua supressão  foi, infelizmente, mais do que a supressão  de um órgão com competência e experiência; foi a supressão de uma Ética.  Aconselho os actuais responsáveis a que passem os olhos sobre o referido livro, “O Erro da Ota”, para ver como é que os técnicos falam destas coisas.


Prof. Eng.º António Brotas
* António Brotas é engenheiro, professor catedrático jubilado do IST e Director do jornal “República Portuguesa”.

 

 

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