Sudanese children eat leaves torn off trees and boiled by their mothers to ward off starvation in the southern village of Paliang May 26, 2005. Mothers in southern Sudan   are feeding their children leaves to stop them starving to death after rich countries failed to heed months of appeals to prevent the region's worst food crisis in seven years. REUTERS/Antony Njuguna - RTRCHDW

Fome declarada oficialmente no Sudão do Sul

Rodrigo Barbosa | pt.euronews.com

 

O governo do Sudão do Sul decretou pela primeira vez oficialmente que a fome afeta várias partes do país. Uma situação que as agências humanitárias dizem ser “causada pelo homem”, devido à guerra que devasta o país há mais de três anos. Um conflito que fez mais de três milhões de deslocados, uma grande parte dos quais procurou refúgio no vizinho Uganda.

A região petrolífera sul-sudanesa de Unidade, rica em petróleo, é uma das mais afetadas e, segundo a ONU, mais de 100.000 pessoas sofrem aí com a fome.

Challiss McDonough, porta-voz do Programa Alimentar Mundial, diz que “não é uma palavra usada de forma ligeira […] mas infelizmente chegou-se a uma situação em que é exatamente o que está a acontecer [no Sudão do Sul]: uma fome”.

A guerra opõe essencialmente as tropas do presidente Salva Kiir, de etnia dinka, aos apoiantes do antigo vice-presidente Riek Machar, de etnia nuer.

Num campo de refugiados no Uganda, uma sul-sudanesa explica que perdeu “tudo” devido ao conflito, acrescentando que “eles mataram muitas pessoas” e que ela “temia pela vida”.

Com ambas as partes acusadas de cometer atrocidades, as Nações Unidas temem que a guerra no Sudão do Sul – que já fez dezenas de milhares de mortos – se transforme num genocídio.

Jonathan Pedneault, investigador da ONG Human Rights Watch para o Sudão do Sul, explicou à euronews a situação atual no país.

Jonathan Pedneault: A situação no Sudão do Sul, em termos de direitos humanos, está entre as piores do continente e do planeta.

Nos últimos três anos, o governo e as forças da oposição conduziram uma guerra extremamente abusiva, visando continuamente civis, em total impunidade.

Quais são os fatores que provocam a falta de alimentos?

JP: Existem vários fatores, incluindo as secas sazonais e uma economia em crise.

No entanto, a atual escassez de alimentos e a fome consequente declarada pela ONU em partes do Sudão do Sul não pode ser dissociada do conflito e dos abusos que têm ocorrido nos últimos três anos.

Em muitas áreas do país, civis foram deslocados à força pelas armas e viram as suas casas e meios de sustento destruídos pelos combates.

Atualmente, mais de 3,3 milhões de sul-sudaneses encontra-se deslocados ou refugiados no estrangeiro. E milhões enfrentam uma grave situação humanitária, uma inflação ascendente e atores armados implacáveis, que pretendem atacá-los e às suas formas de sustento.

Qual é o seu maior receio face à situação?

JP: Estamos obviamente preocupados que a fome se alargue a outras áreas.

Mas é igualmente preocupante o facto de que direitos humanos fundamentais continuam a ser violados de forma flagrante por ambas as partes, em completa impunidade, com um leque de consequências, entre as quais a crise humanitária e a fome são as mais visíveis.

O que pode ou deve fazer o governo e a comunidade internacional?

JP: É preciso reagir à fome com mais assistência humanitária, mas não se pode solucionar o assunto sem se ocupar das raízes do problema.

No centro da questão está a continuação dos abusos, tanto por parte das forças do governo como da oposição, em total impunidade, e a obstrução que fazem à assistência humanitária a determinadas áreas do país.

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