adriano

Adriano Moreira: temos de substituir o “eu” pelo “nós”
(Excertos de uma entrevista a Isabel Tavares)

Isabel Tavares | 24.sapo.pt

 

<sm<ll>1988, Grijó. Com os filhos, António, Isabel, Mónica, Nuno, João, na casa dos pais.</small>
1988, Grijó. Com os filhos, António, Isabel, Mónica, Nuno, João, na casa dos pais.

Tenho uma família numerosa: seis filhos, 14 netos, o mais novo com 14 meses, e agora está a aumentar, porque as raparigas são bastantes, os namorados começam a aparecer. (…) É um velho mundo: nós. Penso que é uma das coisas sérias da nossa situação social e das dificuldades com que estamos neste momento é que a conjugação do verbo com o sujeito eu está a dominar.”

Porquê, se todos parecem saber que é a receita errada, que não é uma palavra feliz?

“Porque o mundo teve uma evolução diferente, as interdependências são muito grandes e as influências também variam de qualidade e de intensidade. Há palavras que se mantêm, mas o conteúdo mudou. Ainda tive de aprender que a fronteira é sagrada, que está regada pelo sangue dos heróis. Que o patriotismo é fundamental. Depois havia os costumes, os hábitos e os valores que vinham da qualidade católica da grande maioria da população. Foi este o mundo em que nasci. Além disso, heróis do mar, tínhamos um grande passado. A pessoa tinha a sua nacionalidade como identificação fantástica, até os que emigravam iam agarrados à terra. Hoje continua a falar-se na fronteira, mas com livre circulação. A nacionalidade é múltipla. Havia a soberania, a palavra continua, mas varia o conteúdo. A hierarquia das potências media-se pela força militar. Neste momento não. Todos dizem que têm soberania, mas uns têm supremacia militar, científica, cultural e financeira, outros não. De resto, na própria Europa se está a verificar isso. É uma unidade, mas sabemos todos que a diferença entre ricos e pobres está a aumentar. A mudança de valores – mantendo a semântica mas mudando o conteúdo das palavras – está a ser rapidíssima.”

(…)

“Assisti, como costumo dizer, a duas quedas do mundo. A primeira foi quando comecei a ter capacidade para me encarregarem de fazer estudos: tive de visitar todas as nossas colónias de África e percebi que uma coisa é o que dizem as leis outra é o que se faz. Depois quando fui delegado nas Nações Unidas: a carta da ONU foi escrita exclusivamente por ocidentais, que mandavam no resto do mundo, a que chamavam terceiro mundo. Por exemplo, um dia um responsável não ocidental pede a palavra e fala livremente ao mundo pela primeira vez na história da humanidade. Mas de acordo com a sua cultura. É preciso olhar para esta multiplicidade sem a superioridade colonial. É uma mudança radical no mundo. E é uma graça de Deus que a consigamos acompanhar com boa cara. Isso influenciou muito a minha maneira de olhar para o mundo, tão diferente de Grijó, Macedo de Cavaleiros. Penso que os objectivos frustrados, e que estavam na grandeza dos estadistas que fizeram as Nações Unidas, são talvez redutíveis a isto: primeiro lugar, substituir a tolerância pelo respeito. Segundo, substituir os conflitos violentos pelo diálogo. Cada um deve ceder o necessário para que o essencial seja salvaguardado. Isto é válido até para os governos internos. Se são um órgão, há-de haver alguma coisa comum. E isto é uma exigência.”

(…)

“Na carta da Nações Unidas, o último projecto para entender e governar o mundo a que chegámos, há dois princípios fundamentais que não estão escritos, mas que são as premissas da carta: o mundo único e a casa comum dos homens. O mundo único significa que não pode haver guerras. A casa comum dos homens significa que a paz e a cooperação são as bases do desenvolvimento sustentado.”

(…)

Foto: Eduardo Martins
Foto: Eduardo Martins

“Portugal precisou sempre de apoio externo – fez alianças, acabaram os impérios e veio a União Europeia. Mas o país sofre as consequências das decisões e factos em que não participa. É preciso olhar para o futuro: a União Europeia não tem conselho estratégico. Tenho impressão que a Alemanha ainda não sabe se quer uma Alemanha europeia se quer uma Europa alemã. A falta de conselho estratégico faz com que não se encontre a harmonia necessária para que a unidade se fortaleça. E a crise europeia vem aí. Um exemplo é esta situação angustiante das migrações e do Mediterrâneo transformado em cemitério, com alguns países europeus a porem muito em evidência o conflito entre meios humanitários e segurança, que levou a senhora – felizmente é uma senhora [Federica Mogherini] – responsável pelas relações externas e segurança da União Europeia [alta representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança] a declarar em lágrimas que precisamos de um exército. Mas andamos com preocupações financeiras e com algum neo-riquismo a discutir décimas. Não reparámos que, tendo a Europa um programa de segurança e defesa comum, ninguém discute que o Brexit leva o maior exército europeu embora. O problema das décimas, se calhar, até vai dar nome à época em que vivemos.”

(…)

“Fui algumas vezes a reuniões da Unesco, um organismo que acho fundamental – identifica, defende e assegura o património da humanidade. Nessa altura tínhamos acabado com o regime colonial e começou a fazer-se a diferença entre os países do Norte e os países do Sul. O secretário da Unesco, que era então presidente do Senegal, pôs em evidência um problema: conhecíamos o mundo através dos meios de informação, só que os meios de informaçáo eram todos do Norte, ou seja, o Sul, pobre, de antigas colónias, não tinha tradução de imagem. E ele queria um regime de informação em que este equilíbrio pudesse ser constituído. Os Estados Unidos mandaram a embaixadora, vestida com uma linda capeline, com esta mensagem: os EUA não podem estar numa organização em que quem paga não manda e quem manda não paga. E deixaram de pagar. ”

(…)

“É preciso recordar que depois da Primeira Guerra Mundial a Europa teve de modificar a sua estrutura e desapareceram o império alemão, o Império Austro-Húngaro, o império russo… Quem exigiu isso foram os Estados Unidos e a ideia de que cada nação devia ter um Estado. Só que, esqueceu o Lord Acton, em regra é o Estado que cria a nação. Até à Segunda Guerra Mundial tivemos um intervalo, houve uma certa esperança, mas foram morrendo os homens a meu ver tocados de santidade, que esqueceram as destruições, não quiseram indemnizações, quiseram a paz. Perante as dificuldades na Europa, às vezes serve de exemplo aquele à-vontade do ministro das Finanças da Alemanha [Wolfgang Schäuble], que julga que tem uma autoridade geral… Há um conflito nos países entre os tratados e a memória. Ou seja, a meu ver há dois fenómenos novos: a memória em relação ao que foram os grandes países empurra-os para ignorarem as suas obrigações internacionais – daí a resposta do americano sobre se os EUA cumprem sempre os tratados: «Depende». Por outro lado, o esquecimento de que a circunstância faz com que nos esqueçamos de algumas coisas: Portugal, por exemplo, sempre teve apoio externo.”

(…)

“Quando caiu o Muro de Berlim a Europa alargou-se. Mas ninguém conhece qualquer estudo prévio sobre a governabilidade do alargamento ou o ritmo a que este devia ser feito. Também não se conhece nenhum estudo sobre fronteiras amigas. O alargamento foi até à Birmânia, esquecendo-se que foi ali que começou a Rússia. Penso que o senhor Putin se lembrou que, quando os turcos invadiram a Europa, a Igreja Ortodoxa russa fez uma declaração: a primeira Roma caiu, a segunda Roma caiu, a terceira Roma não cairá nunca. Há três Putins, foi eleito três vezes: na primeira e na segunda vez declarou-se inclinado para o ocidente, um dos problemas era a China. Na terceira vez, estávamos a ver a Birmânia na Europa. Ele fez um esforço e disse: a minha fronteira de interesses é superior à fronteira física – julgo que terá ido à missa a seguir. Este problema de a memória sobreviver para além dos tratados verifica-se com outros países. É provável que o ministro da Finanças alemão, esse pregador em relação às deficiências dos outros, se lembre que a Alemanha era um império.”

(…)

adrianoo

“Nas Nações Unidas existe um organismo chamado Conselho Económico e Social. Havendo uma crise financeira e económica mundial, já o viu reunir-se? Nem vi tirarem da gaveta um projecto antigo de transformar o Conselho Económico e Social em Conselho de Segurança Económica e Social. Mas Portugal também pertence à Organização Internacional do Trabalho, que prestou serviços enormes no passado. Temos uma grande crise de emprego no mundo e há factores que vão fazer aumentar isso – já viu convocar essa organização? ”

(…)

“Todos os países da CPLP são marítimos, todos têm plataforma continental a defender. Estamos a aproximar-nos de uma época em que a segurança do Atlântico Sul começa a ser importante, pela criminalidade, pelo transporte de drogas. A CPLP é uma divisão do Norte, é a NATO do Sul. Há também a questão dos transportes marítimos, que estão a aumentar e continuam a ser mais baratos que outros transportes. Nenhum dos países da CPLP tem uma esquadra comercial. Então e todos juntos não podem conversar? Talvez pudessem. As circunstâncias tem de ser estudadas.”

(…)

“Fui convidado para fazer um discurso na universidade e acabei por ler um texto que se chama “Quando?”, um sermão espantoso do padre António Vieira que diz isto: Antigamente os ministros estavam às portas das cidades, agora estão as cidades às portas dos ministros. Para resolver os problemas, quando? A segurança, quando? A pobreza, quando? Este é um momento muito difícil. E agravou-se com a história das migrações. O conflito entre segurança e deveres humanitários. Há tratados que obrigam, mas os factos trazem à memória a antiga sobrevivência. Mas há as circunstâncias. Genericamente, é a isso, com variadíssimas formas, que se chama hoje populismo. Populismo é uma saudade de outros tempos. Essa circunstância é que explica os factos que estão a acontecer.”

A memória e o sentimento de hoje não pertencer a lado nenhum…

“Um sentimento a que chamo inidentidade. Precisamos, como sociedade civil, de ter confiança em quem governa e isso foi um grande avanço do Ocidente, ter inventado um estado em que tem de haver quem governe, um sistema jurídico justo e respeitado. E a objectividade vem da adesão do povo à governança.

Que é cada vez menor.

Neste momento o sinal mais claro do que se está a passar são as abstenções nas eleições. Há certamente muitas razões, mas há duas fundamentais. Uma é a inidentidade, porque quando vai votar vota em partidos, mas não sabe quem são os deputados. Conhece alguns, mas a escolha é-lhe oferecida sem lhe perguntarem nada. Isso quer dizer que vai votar na inidentidade, vota no grupo. Outro motivo é a complexidade da governação interdependente mundial que fez crescer um fenómeno: é necessário que as pessoas sejam cada vez mais qualificadas e são necessárias menos pessoas. Mas a complexidade da gestão é tal, que quem é expedido para o governo, fatalmente em grande parte é a inidentidade, que tem de articular a sua burocracia com a burocracia dos organismos internacionais de que também passa a depender. Lá vêm os eurocratas. Como isso é uma multidão que exerce o poder que é delegado, dentro de pouco tempo é o delegado que manda, não é o delegante. De modo que deixa de saber quem realmente decide. E depois as populações vêem que as promessas não estão a ser cumpridas e aumenta o desinteresse por intervir nas eleições, além de não saberem quem é que efectivamente tem poder. E começam a lamentar-se que antigamente sabiam, vem a memória chamar pelas pequenas pátrias.

Acontece o Brexit, o referendo pela independência na Catalunha, agravam-se as coisas em Itália…

Exactamente, acontece o que se está a verificar. Neste momento temos a situação a agravar-se em Espanha, em Itália, em França e em Inglaterra. Ainda por cima é na Escócia, que quer a independência e que preferia manter-se na UE, que estão os principais recursos militares, o que é um problema. Uma vez mais, o imprevisível está à espera de uma oportunidade. É terrível isto.

Os casos de governantes femininos com capacidade e experiência que já temos são extraordinários. A pouco e pouco isso vai permitindo que elas ponham um sentimento que é muito mais próximo do verbo nós do que do verbo eu. Tudo isto é uma esperança.”

(…)

Quais são os traumas portugueses – os que se notam na nossa governação, nos nossos governos?

“Portugal tem este problema: este cardeal fala de Portugal terreno dizendo nesta terra que nos calhou ou onde encalhámos. De facto Portugal precisou sempre da expansão para aumentar o poder e a dimensão. Outro dia traduziram um livro, “Império”. E começa assim: “Em Lisboa há uma praça dedicada à memória de Afonso de Albuquerque e Vasco da Gama e onde existe uma loja que vende os chamados pastéis de Belém. É o que resta do império.” Eu tenho a colecção das cartas publicadas, que foi o filho dele que publicou. A última carta é escrita de Mombaça, no barco, e diz que a fortaleza é inexpugnável. “Para o futuro se tratarmos esta gente com justiça seremos considerados guerreiros, se tratarmos com injustiça seremos uns salteadores”. E ele, como militar, era duro como o diabo. Depois comecei a pensar no património que ele tinha, na Casa dos Bicos – e ao que ela foi parar… Sabe qual era o património de João de Castro? Uns pinheiros em Sintra, era lá a casa dele. Era do Estado, agora é de um alemão. A história de Portugal está a ir embora.”

Leia a entrevista na íntegra aqui >>

-0

Deixe um comentário

72 − = 65

Facebook
Twitter
Google+
Linked In
RSS
Do NOT follow this link or you will be banned from the site!