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Como a Esquerda desistiu dos desempregados

João Vasco Almeida *

 

A senhora telefona e diz o nome naquela rapidez dos call-center. “Fala Tysid Abzzz do Instituto de emprego, estou a falar com…”. Digo que sim, mas pergunto-lhe o nome, o que a deixa enfastiada. São nove e meia da manhã e aqui na casa queremos que os poderosos talentos que nos apareceram há três meses tenham um contrato de trabalho digno. Fizemos a candidatura e agora estamos sob escrutínio da NSA, sob a forma de contactos inquisitivos.

“O senhor Z não é elegível porque faz parte dos OSE”, dispara Ysakjh Tasg, pois continuo sem perceber o nome. “Desculpe”, respondo, “mas a portaria de 18 de Janeiro deste ano retirou esse impedimento”: Responde Obiwan, zangadíssima: “Mas o que conta é o nosso regulamento interno”.

Suspiro. “Não, não conta. As leis têm uma hierarquia e a portaria sobrepõe-se ao regulamento interno do IEFP”, esclareço. “Não, não”; diz OIshuh Tsvhv.

Aqui, restam, duas opções. Ou digo “Sim, sim”, e não saímos daqui, ou tento uma certa pedagogia. Vou pela segunda. Mas falho redondamente. “O que lhe estou a dizer”, começa com voz de quem está casada comigo e eu há anos que deixo as boxers penduradas na porta da rua, “é que o senhor não tem razão”.

Tenho. A hierarquia das leis aprende-se no secundário e cimenta-se na faculdade. É daquelas coisas que nos fica na memória como o mapa de Portugal que vem no Skip com os azuis escuros a dizer onde está a “água dura” e os azuis bebé a afirmar que ali há “água mole”.

Combinámos um encontro para depois, que suspeito não será para fazer as pazes mas para levar com a porta na cara.

A Esquerda, sei lá se esquerda ainda, passou uma Portaria onde as PME e as Associações ou IPSS que queiram contratar pessoas, sem termo, ficam com um apoio de cerca de 30 euros por mês, perante um custo total de mais de 500 euros. Parece ridículo, e é, parece apoucar, e é. Até 18 de Janeiro o apoio ia aos 400 euros, mais ou menos, por mês, durante um ano, tempo que permitia aos adulados “empreendedores” aguentarem o barco, fazer crescer a coisa e robustecerem o negócio para assumir, depois, a despesa do ordenado.

Mas o Governo, aparentemente, julga que bastam 30 euros para que uma pequena padaria em Montes Claros desate a contratar pasteleiros, ou uma inicial oficina invista em três mecânicos. Tudo sob o compromisso do IEFP meter o nariz nas contas e ir lá ver se as casas de banho estão limpas.

A senhora do telefone, cujo nome ficará para sempre incógnito, falava com o dom de quem tem na mão o futuro dos outros e um desprezo imenso por isso. O seu pequeno poder, adicionado à sua enorme ignorância e aos seus tiques de unhas de gel e perfumes equivalentes, apenas lhe confere o perfil de Bokassa dos desencorajados, dos recém-licenciados e dos desesperados. A sua cabeça administrativa, doente, perdida, não tem humanismo nenhum.

Ora, lá estamos nós: sem uma boa base de civismo, cidadania e humanismo, nada se faz. Os cem mil novos empregos apregoados aí nas cidades em cartazes vermelhos, desconfio, têm forte percentagem de listas limpas. E, com estas novas medidas de desapoio ao emprego e meninas destas, rapidamente chegaremos aos sete por cento. Mais uma vitória estatística e mais meio frango para a mesa do fundo.


jva
* João Vasco Almeida é director da revista Karga! e foi editor de Política e Chefe de Redacção de publicações como Focus, TVI24, 24horas, Tal&Qual ou Ego. É cronista e mantém correspondência com os jornais La Vanguardia, Iberosphere e Folha de São Paulo. Escreveu ainda para o Diário de Notícias e Visão.

 

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