jovens_8

Balanço no contexto europeu
Tendências recentes do emprego dos jovens diplomados portugueses

Miguel Chaves e Mariana Alves Gaio * | Le Monde Diplomatique

 

Os anos de intervenção da Troika em Portugal tiveram efeitos sobre todo o mundo do trabalho. No caso dos diplomados pelo ensino superior, são visíveis as consequências sobre o emprego, os níveis remuneratórios e a emigração. E a comparação com a evolução na União Europeia revela a rota de divergência que, também neste âmbito, está a ser infligida aos países do Sul europeu.

Há alguns anos, também na edição portuguesa do Le Monde Diplomatique, tivemos a oportunidade de demonstrar que, no final da primeira década do presente século XXI, o cenário de inserção dos jovens diplomados do ensino superior estava longe de assumir, em Portugal, os contornos catastrofistas com que vinha sendo descrito, pelo menos desde a década de 1980 [1]. Neste texto pretendemos, lançando mão a dados existentes, produzidos e publicitados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e pelo EUROSTAT, regressar à temática da inserção dos diplomados, com o intuito de responder a cinco questões salientes num momento em que Portugal atravessou uma profunda recessão e em que a crise económica da União Europeia evoluiu para uma nova fase.

Qual a situação dos jovens portugueses com o ensino superior concluído face ao trabalho? Como é que essa situação evoluiu na presente década? Em que medida as tendências evolutivas registadas são similares às verificadas noutros países da Europa do Sul? Em que medida essas tendências do Sul se sintonizam ou desviam da média europeia? Sobretudo, em que situação ficou Portugal no decurso da «grande recessão» no que concerne aos indicadores relativos ao emprego dos diplomados, numa óptica comparativa?

Antes de responder a estas perguntas importa salientar que abordar o tema do emprego dos diplomados do ensino superior não tem implícita qualquer ideia de que os graduados devam ser concebidos apenas, ou sobretudo, como «capital humano» a integrar no mercado de trabalho, nem significa que o ensino superior deva ser entendido, essencialmente, como um instrumento para corresponder a necessidades do sistema económico. Podendo soar como truísmo, sabemos bem que esta advertência é indispensável num momento em que tais crenças correm o risco de se tornar acriticamente hegemónicas. Por seu lado, a advertência não significa descurar que a relação do ensino superior com o mercado de trabalho e com o tecido económico é relevante e que não deve deixar de ser equacionada, de forma cuidadosamente reflectida, nos esforços de reforma das universidades na actualidade.

Diplomados portugueses: manutenção de vantagens num quadro global de degradação

O que importa notar, antes do mais, é que a situação face ao mercado de trabalho dos jovens portugueses que completaram o ensino superior se deteriorou nos últimos anos. O cenário de deterioração não será porventura tão radical como o sugestionado na maioria dos meios de comunicação, inclinados ao sublimar emocional, mas é incontornável. Basta recorrer-se aos dados do INE para se registar que, entre 2011 e 2013, se verificou uma quebra assinalável na taxa de emprego dos diplomados portugueses no escalão etário dos 25-34 anos. Trata-se de um declínio que se vinha observando, de forma progressiva, embora ligeira, desde 2000. Contudo, durante aqueles três anos a queda torna-se abrupta: de 82,3% para 76,6%. Inversamente, a taxa de desemprego subiu de 12,4% para 17,8%. É certo que a partir de 2014 se regista uma recuperação em ambos os indicadores, embora mantendo-se sempre em níveis inferiores aos registados antes de 2010, e muito inferiores aos apurados para 2000, no mesmo segmento de idades.

O mesmo sucede com os níveis de rendimento. Também aqui a quebra ligeira, mas progressiva, registada ao longo da primeira década do presente século, se agudiza claramente a partir de 2011. De acordo com os dados do Inquérito ao Emprego do INE, entre a população na faixa etária dos 25-34 anos com o ensino superior concluído, a remuneração mensal média líquida caiu de 1031 euros, nesse ano, para 903 euros, em 2015. A perda é pois assinalável, relegando os jovens com diplomas do ensino superior para um patamar francamente abaixo dos 1000 euros mensais. Em dados que se encontram disponíveis, verifica-se que esta degradação salarial ocorre entre licenciados, mestres e doutorados, acentuando-se, em termos comparativos, junto dos último [2]. O peso esmagador do sector público no emprego de doutorados explica grande parte desse maior agravamento relativo, que reflecte, no fundo, os cortes salariais expressivos sofridos pela Administração Pública.

Nada do que foi dito deve contribuir para alimentar o equívoco de que a diplomação superior não se continua a repercutir favoravelmente nas probabilidades de se encontrar trabalho e também em termos remuneratórios, pois repercute-se e eleva-se significativamente dos licenciados para os mestres e destes para os doutorados. Os dados do Inquérito ao Emprego do INE são neste capítulo também inequívocos, demonstrando-nos que durante todo o período 2011-2015 tanto as taxas de emprego como os níveis de remuneração líquida dos diplomados entre os 25 e os 34 anos permaneceram mais elevados do que os da média total da população na mesma faixa etária (em 2015, a diferença era, respectivamente, de 79,9% para 77,8%; e de 903 euros para 725 euros). Ainda assim não deixam também de demonstrar que a perda dos jovens diplomados foi superior à registada junto dos não-diplomados, em qualquer dos indicadores (a variação remuneratória média, ao longo deste período, foi de menos 128 euros para os jovens com nível de instrução superior, de menos 18 euros para aqueles que haviam concluído o ensino secundário e pós-secundário e de apenas menos 2 euros para os que não foram além do básico). Estes dados, porventura agravados se não se tivesse verificado um surto migratório significativo de populações graduadas, é bem sugestivo do fenómeno de estreitamento das «classes médias» (se quisermos ser mais rigorosos, da descapitalização abrupta dos estratos médios da população) registado nesse período.

Portugal, o Sul e as assimetrias intra-europeias

Os dados do EUROSTAT permitem-nos, por seu lado, encarar a situação portuguesa no contexto europeu e constatar dois aspectos centrais. (…)

Ver original completo >>

 

Gráfico 1

Gráfico 2

Gráfico 3

Gráfico 4

Gráfico 5

* Respectivamente, professor da FCSH-UNL e investigador do CICS.NOVA, e professora da FCTUNL e investigadora do UIED.


Notas


[1] Referimo-nos a Miguel Chaves, «A Inserção profissional dos diplomados em Portugal», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Junho de 2007. Cf. também Miguel Chaves, César Morais e João Sedas Nunes, «Os diplomados do ensino superior perante o mercado de trabalho: velhas teses catastrofistas, aquisições recentes», Fórum Sociológico, n.º 19 (2.ª série), 2009, pp. 83-98, ou Miguel Chaves, Confrontos com o Trabalho entre Jovens Advogados: as Novas Configurações da Inserção Profissional, Imprensa de Ciência Sociais, Lisboa, 2010.

[2] Cf. relatórios disponíveis em www.unl.pt/pt/universidade/Documentacao/pid=291/ppid=78.

-0

Deixe um comentário

20 − 11 =

Facebook
Twitter
Google+
Linked In
RSS
Do NOT follow this link or you will be banned from the site!