jsoifer

BES 3
Sim, Marcelo! Fora o Euro!

Jack Soifer *

 

O PR e o PM têm razão! É inaceitável a atitude do chefe do Eurogrupo e do Ministro da Economia Alemão. Este não falou ao jornal, mas fala em público sobre os países do Sul da Europa. O problema não é nós, mas a mal pensada entrada de países díspares para o Euro. As sugestões dos cientistas em economia – não os monetaristas – desde 2000, não foram ouvidas. A alternativa, o Euro-M, de 2010, citada no livro bilingue lido em Bruxelas, “PORTUGAL POS-TROIKA? ECONOMIC DEMOCRACY?” foi desprezada. Haveria caos? Não; já há moedas paralelas na UE, como na Baviera.

Há notas de 1, 2, 5, 10 e 20 Chiems, similares as do Euro. A cada três meses exige-se um selo de 2% do seu valor, para motivar a utilização do dinheiro. Só circulam na região de Chiemgau, entre Munique e Salzburgo. O consumidor troca 100€ por 100 Chiemgauer na associação que quer apoiar. Usa os 100C no comércio local, em paridade com o €. Este utiliza-o para pagar parte dos salários e comprar a fornecedores locais, ou trocar por 95€, na instituição que emite Chiems. A associação beneficente compra 100C por 97€ e fica assim com 3€ por transação. A instituição vende 100C por 97€ e recompra por 95€, ficando com 2% para os custos administrativos. FUNCIONA!

Chiemgauer - Moeda local que circula na região austro-alemã de Chiemgau.
Chiemgauer – Moeda local que circula na região austro-alemã de Chiemgau.

Para quê reinventar a roda? Esta roda já roda há 14 anos! Em 2016 circulavam 996mil Chiems, usados por 3.365 famílias em 550 lojas, para o bem de 269 associações que receberam 530 mil C. Já em 2010 a instituição começou a oferecer microcrédito a empreendedores do concelho. Em 2012, num Seminário em Berlim sobre Moeda Paralela, fez-se uma proposta detalhada para a Grécia. Mas o Ministério da Economia Alemão travou-a no Eurogrupo.

Em França há o SEL, Système d’échange local, em 450 locais. Em 1980 começou o primeiro, em Le Mans. Em Maio de 1995, fez-se o Ariege, de sistemas de moedas locais. O seu objetivo era o de criar sistemas similares e mais moedas locais. Em 1999, na reunião anual do SEL criou-se um sistema de trocas entre as diversas SEL’s de França.

Em 2003 surgiu uma coordenação nacional, a Sélidaire. E a Estrada do SEL, alojamento para os membros de SEL’s de França, Suíça, Espanha, Bélgica. Em 2014 criou-se o Coletivo, serviços de pooling, como seguros e web-hosting, e apoio aos criadores de SELs.

“Permitir a criação de moedas locais, como já existem em França, Canadá, Suíça e Alemanha, é a única solução para sair da brutal dívida pública e da subida de juros que nos afetará”

O modelo é parecido com o da Baviera mas tem ainda a troca de serviços, onde uma hora de um expert é trocada por uma hora de um outro; às vezes, um VIP dá só meia-hora dele por troca de uma hora. Cada vez mais os valores são registados num sistema informático criptografado, similar ao bitcoin, mas gerido pelo SEL local. Quase sempre este tem ,na direcção, representantes de algumas das associações participantes. SEL’s não pagam IVA.

A Suíça tem o WIR (significa nós) desde 1993. Em 2014 este banco cooperativo com moeda própria tinha 20% de todas as PME’s. Em 2016, o WIR tinha 177 mil clientes e totalizou negócios de 5,3 MM de Francos Suíços, em WIR.

WIR - a moeda local suiça que, segundo alguns observadores, é uma das chaves da estabilidade económica do país.
WIR – a moeda local suiça que, segundo alguns observadores, é uma das chaves da estabilidade económica do país.

No Canadá há o Calgary Dollar desde 1995, autorizado pelas Finanças. São notas em plástico, com o mesmo valor da moeda oficial. Cada PME aceita entre 25% e 100% do valor da venda em C$. Projetos sociais até C$ 2000 podem receber metade em subsídio nesta moeda para despesas locais. Considerado como moeda de troca entre associados, tem financiamento bonificado.

Os detalhes de como trocar o Euro pelo Euro-M, válido na Grécia, Malta, Espanha e Portugal, já estão definidos. Ameaçar sair do Euro e seguir a Finlândia, Áustria e Grécia, poderá resultar na sua revisão e na modernização do BCE. Permitir a criação de moedas locais, como em França, Canadá, Suíça e Alemanha é a única solução para sair da brutal dívida pública e subida de juros que nos afetará.

YES, MARCELO, ANTÓNIO, CARLOS! YOU CAN!


Foto: Barlavento.pt

*Jack Soifer é engenheiro e gestor, ex-patrão da empresa sueca SWEDUC. Fez 298 consultorias em 12 países; entre outros, na Rússia, Brasil, Angola, China e EUA. Escreve artigos de opinião sobre o potencial de lucros com pequenos negócios. Autor de 41 trabalhos e livros; o mais conhecido é “A Grande Pequena Empresa”. Os mais recentes são “COMO Sair da Crise”, “Entrepreneuring Sustainable Tourism” e o  bilingue PORTUGAL PÓS-TROIKA? ECONOMIC DEMOCRACY”?

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  • Vítor Lima 30/03/2017 at 15:50

    Pois, Jack isso é interessante mas tem uma aplicação muito limitada.
    Levantam-se três questões:
    1 – A existência de comércio local. Em Portugal o grande consumo faz-se nas cadeias de supermercados, bem inseridas na economia global e tenho todas as dúvidas que participassem nisso. Grande parte do país quase não tem comércio local; há aldeias onde os supermercados organizam transportes para as levar às suas lojas
    2 – Os portugueses são pouco associativos e desconfiados de tudo o que envolva dinheiro e confiança.
    Uma ideia interessante seria bancos de horas, trocas de serviços entre pessoas com competências distintas e complementares, fora do mercado formal, sem iva e inclusão no E-fatura. Exige alguma dimensão e heterogeneidade da população abrangida e uma gestão por entidade democrática, saida do seio dessa comunidade, com contas transparentes para todos . Jamais um órgão estatal ou que envolvesse membros classe política
    3 – Terceira questão e a mais importante. É que a importância de uma moeda global é essencial em economias globalizadas, com trocas intensas; e voltar às moedas nacionais encarece e burocratiza essas relações, envolve cotações em função da oferta/procura de cada uma, em ligação com os desequilíbrios nos fluxos de expor/import, estabelece um elemento de flutuação e especulação, necessidade de maior burocracia, com os bancos a fixarem mais taxas e comissões; e favorece o mercado negro de divisas

    A questão realmente importante na Europa, sem pensar em revoluções copernicianas, são as desigualdades, a existência de um Centro e duas periferias, sem compensações ao nível de um orçamento comum, nem política fiscal comum, nem salário mínimo comum, segurança social comum, etc
    Abraço

    • Jack Soiferr 01/04/2017 at 21:27

      1. A maioria das aldeias tem o comércio das pqn cidades e vilas q lá vai. Ou os aldeões vão à Vila com alguma frequencia. A moeda local não substitui por completo o Euro.
      2. Concordo com a última frase! Mas, em pqn cidades a desconfiança com assoc.locais é menor.
      O associativismo aumentou nas vilas do Chile e da Argentina, quando as moedas locais lá chegaram.
      3.Acredito que quando o grande comercio começa a perder clientes, tentam fazer algo. Ao espalhar cada vez mais moedas locais fez com que mudanças radicais ocorreram no Chile e depois na Argentina, chegando a Austria. Hoje o Chile e a Argentina explodem de desenvolvimento. E a Austria quer sair do Euro e provavelmente sairá da UE assim que o BREXIT estiver negociado e servir de modelo para a saída da Finlândia, Austria e Grecia.

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