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A doutrina Trump e a reestruturação do mundo

Chems Eddine Chitour | L’Expression. Júlio Marques Mota (selecção e tradução), Francisco Tavares (revisão) | aviagemdosargonautas.net

 

«A Internet é o futuro barril de petróleo.»
Bill Gates

O mundo está a sofrer uma reorganização e feita a alta velocidade. As premissas eram previsíveis com o fim do mundo unipolar. Os povos levantaram a cabeça. Tudo começou pelo recente período da formação dos BRICS que tinha a ambição de ser um contrapeso ao império, à globalização, ao comércio livre, ao Consenso de Washington, em suma, um contrapeso contra todas as receitas neoliberais, a doxa imposta pelo Império e pelos seus vassalos, quando isso servia os seus negócios. Restavam ainda as matérias-primas, não há 36 soluções, ou se está perante o brando poder dos chineses com o slogan “ganhamos todos, dito também Winn-Winn” ou é o poder duro da democracia que as pessoas com sede de liberdade carregam enquanto, de passagem, lhes pilham as suas riquezas. Se isso não é suficiente, criamos revoluções multicoloridas e outras primaveras árabes, o essencial é criar um caos reorganizador, nas palavras de Candie Rice.

O mundo está em constante reorganização. Sabemos, por exemplo, que a China põe em prática um novo bloco chamado Brics. Além disso, com a participação de 11 países. “ O Irão, Paquistão, Bangladesh, Nigéria, Coreia, México, Indonésia, Turquia, Filipinas e Vietname são os seus membros. O ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, anunciou igualmente que Pequim estava a tentar promover as suas relações com os países em desenvolvimento e definir os objetivos estratégicos deste bloco. (…) Deve-se notar que a China vai presidir em Setembro do ano em curso aos BRICS. De acordo com especialistas, com a formação deste bloco Pequim pretende reforçar a sua influência no cenário mundial e mudar as suas políticas face aos BRICS e para com países como a Índia. O presidente chinês acredita que os membros dos BRICS apoiarão os países em desenvolvimento e serão uma força para proteger e salvaguardar a paz mundial “ (1)

handworld

A nova arquitetura global é o prelúdio de um mundo multipolar

Mesmo o Golfo que se pensava mergulhado nos vapores de cachimbos de água vai mais longe, eles também aspiram a criar alianças. Assim, ficamos a saber que o rei saudita Salman visitou a Indonésia, o país muçulmano mais populoso do mundo, tendo como doutrina a exportação do wahabismo diplomático, chegam a acordo, numa versão livro de cheques para ganhar a adesão. Wayne Madsen analisa as diferentes estratégias que afetam não só os países do Golfo, mas o Extremo Oriente:. “Salman, escreve Madsen, também visitou a Malásia, que esteve implicada num grande escândalo político decorrente da aceitação pelo primeiro-ministro Najib Razak, de um “presente” de um milhar de milhões de dólares de uma empresa pública saudita. Esta projeção do poder Arábia no Sudeste Asiático e a viagem do rei da Arábia Saudita à Indonésia, primeira visita de um monarca saudita desde 1970 pelo Rei Faisal, verificou-se quando o presidente dos EUA, Donald Trump anunciou que os Estados Unidos consideravam sempre os seus interesses em primeiro lugar. (2)

“Enquanto que Trump pediu um aumento massivo no orçamento militar para o Pentágono, há claramente uma mudança nos alinhamentos mundiais devido à nova política bilateral da América, em oposição ao multilateralismo. O objetivo imediato e desconcertante de Salman ao visitar a Indonésia, a Malásia, o Brunei e as Maldivas, todos os países de maioria muçulmana, parece ser o de querer estimular as sociedades muçulmanas já estritas do Brunei e das Maldivas a incentivarem a radicalização islâmica na Indonésia e a Malásia, dois países que abrigam importantes minorias cristãs, budistas e dos outros grupos religiosos. (…) Para além da propagação do wahhabismo radical, os sauditas adotam uma política estratégica “virada a Leste”. Salman e a sua equipa vão igualmente visitar o Japão e a China. Em Pequim, Salman poderá ser esperado, a respeito do apoio da Arábia Saudita aos Ouïgours muçulmanos que se batem na região autónoma do Xinjiang-Ouighour (XUAR) por um Estado islâmico independente “do Turkestan oriental”. (2)

Os Emirados Árabes Unidos estendem igualmente a sua influência para além do Golfo. Recentemente anunciaram que construíriam uma base militar em Berbera, sobre o golfo Aden, na república separatista de Somaliland, que não é reconhecida a nível internacional. A Somaliland declarou a sua independência da Somália em 1991. A base de Somaliland acrescenta-se à uma base da Arábia Saudita já em atividade em Assab na Eritreia. Além disso, os Sauditas encaram a hipótese de construírem uma base militar no Jibuti para apoiar a sua campanha de verdadeiro genocídio contra as forças antis sauditas no Iémen. A Turquia estabeleceu igualmente a sua primeira base militar em África, na capital somaliana de Mogadíscio. “(2) “Não há assim muito tempo prossegue Wayne Madsen, o presidente Obama anunciava o seu “eixo económico e militar” para a Ásia, fundado sobre a parceria transpacífica (TPP). Após a retirada de Trump do TPP, a Austrália vira-se para a China para relações económicas mais estreitas, os Filipinos querem pôr fim à presença das tropas americanas no país, e, como se vê com a visita do rei Salman, a Indonésia e a Malásia lançam novas parcerias estratégicas com o Médio Oriente.” (2)

Wayne Madsen cita também a Índia que quer ter peso no futuro : “A Índia construiu bases navais sobre a ilha da Assunção nas Seicheles e no arquipélago de Agalega, um território das ilhas Maurícia que se encontra a 1000 quilómetros ao norte de Maurícia. A Índia mantem igualmente uma instalação radar de informações no norte da Madagáscar, perto de Ambilobe, e um depósito naval em Mascate, Omã. (…) Singapura está a negociar direitos para uma base aérea, destinada principalmente à formação de pilotos da Força aérea de Singapura, da base aérea de Ohakea na Nova Zelândia e na base aérea de Anderson, no território americano de Guam. (…) O Pacifico sul poderia muito em breve atingir o Corno da África e o Oceano Índico, como lugar onde todos procuram estabelecer bases navais e aéreas. A China é conhecida por se interessar em tais bases nos países que são os principais os beneficiários da ajuda chinesa, como as Fiji, as ilhas Samoa, as ilhas Tonga ou Vanuatu. Os Estados Unidos consideram o Pacifico Sul como “um lago americano”, mas como os seus substitutos regionais, a Austrália e a Nova Zelândia, procuram novas relações estratégicas, outros atores estatais, entre os quais o Japão, o Índia, a Rússia, a Alemanha e o Canadá, poderiam estabelecer a sua própria presença militar na região.” (2)

A Europa procura-se: uma potência económica com pés de barro

Tornou-se evidente que a Europa sem o sabre não será audível. Nós vimo-lo com o problema palestino, o quarteto e com todo o espetáculo das potências fundadoras da Europa que se querem mais iguais que outras. Esta tentação foi mais do que nunca reafirmada aquando da última cimeira europeia a partir da qual se tem vindo a falar cada vez mais de uma Europa a, pelo menos, duas velocidades. A França pendura-se na locomotiva da Alemanha e tenta manter a cabeça fora da água embora seja a única potência nuclear, agora que o Reino Unido deixou o navio em perdição. Compreende-se que para Trump a Europa já deixou de ser a Europa. Trump semeia a divisão e a partida dos Britânicos é pão benzido para os Estados Unidos.

Além do mais, de mãos um pouco atadas pela situação dos países da ex Europa que só estão para se “aproveitarem dos subsídios” e que são mais nacionalistas que nunca quando trata dos migrantes, tudo isto prova que os direitos do Homem da União Europeia, este mito fundador, são hoje um objetivo falhado. Estes direitos do homem são os que autorizam o emprego das mulheres cobertas com o véu islâmico sob certas condições na administração. É dizer se os demónios do nacionalismo, este chauvinismo da prosperidade, estiver em vias de formatar duravelmente as elites que farão tudo para ter os votos dos eleitores explorando os medos das pessoas como em França, em que não é necessário acreditar que o extremismo é monopólio da FN, a direita e o seu representante apanhado pelos “negócios” mergulham no nevoeiro e tenta-se juntar os extremos, procurando passar a mão pelo pêlo do eleitorado da extrema direita.

Curiosamente, a situação atual da Europa era globalmente a mesma que ela tem desde há mais de 60 anos. A contribuição seguinte é devida, confirma-nos François Honti, um dos fundadores com Hubert Beuve-Méry do Mundo Diplomático, ao seguinte: “(…) A Comunidade Económica Europeia poderá num próximo futuro progredir para a formação de uma união política e militar? O destino da CEE depende finalmente da resposta que será dada à esta pergunta; uma potência económica que não está em condições de assegurar a sua própria defesa e que não é capaz de definir uma linha política comum arriscar-se-ia a desintegrar-se por ocasião de uma crise internacional. A supranacionalidade, que estava na origem do objetivo dos Grandes Países europeus, aparece como prematura; a opinião pública dos Estados-Membros não parece nada pronta para aceitar que decisões tomadas por um organismo extranacional possam, se for caso disso, ser julgadas mais ou menos prejudiciais à certas categorias de cidadãos, o que aconteceria fatalmente, mais cedo ou mais tarde; o governo também não, porque este teria que responder perante o Parlamento e perante os seus eleitores por ações decididas fora dele.” (3)

(…)

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Pr. Chems Eddine CHITOUR, LA DOCTRINE TRUMP ET LA RESTRUCTURATION DU MONDE- Que fait l’Algérie pour sa visibilité? Texto disponível em: http://www.lexpressiondz.com/chroniques/analyses_du_professeur_chitour/262667-que-fait-l-algerie-pour-sa-visibilite.html


  1. http://www.presstv.ir/DetailFr/2017/03/13/514164/La-Chine-cre-les-BRICS-Plus
  2. Wayne Madsen http://lesakerfrancophone. fr/une-nouvelle-architecture-globale-prelude-dun-monde-multipolaire
  3. François Honti https://www.monde-diplomatique.fr/1972/04/HONTI/30842
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