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“O Porto está deploravelmente disneylandizado”
– Afirma Regina Guimarães

Carina Fonseca | Jornal de Notícias

 

“Desobedecer às indústrias culturais” é o nome do livro que a escritora e cineasta Regina Guimarães apresentou na passada quinta-feira, em Coimbra.

A obra aborda a realidade do Porto e dá exemplos de coletivos que por lá vão trilhando caminhos alternativos, com liberdade de criação e rejeição da mercantilização da arte.

São mais de 20 os coletivos portuenses apontados como escapando à lógica dominante. Entre eles estão a livraria-cafetaria Gato Vadio, que põe a tónica na independência, a associação cultural A Cadeira de Van Gogh, que se mantém por “carolice” de alguns associados, ou a editora Edições 50 kg, de Rui Azevedo Ribeiro, que a assume como “um capricho”, pois “não é rentável”.

Questionada sobre se a cidade onde nasceu se mantém, pois, culturalmente viva, não acomodada, Regina responde de forma clara, por escrito: “Sem querer ser bairrista, o Porto é uma cidade que tem sido forçada a resistir aos maus tratos do poder central. Mas não embandeiremos em arco. Neste momento o Porto está deploravelmente disneylandizado e poucas vozes se levantam contra esse espezinhamento do(s) espírito(s) do lugar”.

Indústrias culturais refletem “cobardia” e “preguiça”

Em “Desobedecer às indústrias culturais”, Regina Guimarães defende que as indústrias culturais “moldam todos os produtos artísticos de modo a que eles respeitem os padrões e imperativos comerciais”. E isso, afirmou ao JN, “reflete a cobardia dos criadores e a preguiça do público”.

Mas afinal o que são essas indústrias culturais e criativas a que, segundo a autora, é preciso desobedecer? Ela descreve-as como “um conjunto de atividades desenvolvidas por indivíduos, entidades ou instituições inscrito no campo da cultura e da arte que fabricam produtos adaptados ao consumo das massas, oferecendo ao cidadão o que ele supostamente procura e sonegando-lhe o estatuto de sujeito a fim de o transformar em consumidor”.

Para a escritora, o livro destina-se “a todos os curiosos irrequietos que”, à sua semelhança, “não são cientistas sociais nem especialistas deste assunto, mas sentem que ‘algo está podre no reino da Dinamarca'”.

Artistas, “os pioneiros da gentrificação”

Regina Guimarães nota ainda uma relação entre as indústrias culturais e criativas e a gentrificação do edificado. “Sabe-se hoje que os artistas (lato sensu) são os pioneiros da gentrificação”, começa por dizer ao JN.

Para logo concluir: “Quando um bairro pobre e decadente começa a tornar-se ‘trendy’ porque os artistas nele se vão instalando em número crescente, a porta para a especulação imobiliária, o emburguesamento do local e a expulsão dos primitivos habitantes está encancarada”.

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